Você tem ideia de onde vem o bife que compõe o seu prato? Há chances de que ele esteja entre os 30% da carne bovina que não passa sequer por inspeção sanitária, expondo os consumidores ao risco de contrair inúmeras doenças e até levar a morte.

Veterinários assinam certificados sem presenciar o abate, regularizando a situação da carne bovina sem atestar as condições sanitárias do local.

Esta é a conclusão de oito meses de levantamento feitos pela Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) Amigos da Terra – Amazônia Brasileira. No relatório Radiografia da Carne no Brasil, divulgado em audiência pública no Congresso na terça-feira, 9 de abril, a organização expõe que quase mil estabelecimentos atuam sem qualquer fiscalização efetiva.

O cenário encontrado demonstrou que em aproximadamente 80% dos empreendimentos não é sequer realizada a inspeção sanitária: além da baixa higiene, os estabelecimentos desrespeitam o meio ambiente, os direitos trabalhistas, o bem-estar animal e dificilmente possuem rastreabilidade e origem do produto.

Parte de um amplo estudo sobre as cadeiras da pecuária iniciado em 2007, a pesquisa focou nos empreendimentos que são oficialmente inspecionados pelo município e estado. Foram 280 empreendimentos, cerca um quarto do total, em oito estados responsáveis por 61% do rebanho bovino brasileiro: Pará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito federal, Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul.

Além disso, o relatório denuncia a existência de veterinários que assinam certificados sem presenciar o abate, regularizando a situação da carne bovina sem atestar a segurança do produto à saúde humana.

Leia abaixo mais detalhes do abate no relato contido no documento:

Choques elétricos empurram o boi pelo estreito corredor, enquanto um trabalhador – sem camisa, luvas ou equipamento de proteção – segura uma marreta e aguarda a hora de desferir o golpe. Na sala de abate, sob as patas do animal, poças de sangue e restos de outros bovinos e suínos. Quando o martelo atinge a cabeça do gado, ele desaba no chão imundo. Numa bacia ao lado – de onde transborda um líquido de cor avermelhada, formado por uma mistura de água e sangue – é enxaguado o facão. A lâmina rasga a barriga do animal ainda vivo, que sangra e se debate até parar completamente. Em seguida, o serrote é usado para partir os ossos. Os pedaços cortados esperam expostos no chão de cimento, sem cuidados mínimos de higiene. Moscas se multiplicam. Não há refrigeração no matadouro. Em algumas horas, essa mesma carne entrará em um caminhão rumo ao mercado. De lá, irá para a mesa de uma família que ignora totalmente os riscos à saúde que corre.

Padrões

De acordo com o relatório, o Brasil conta atualmente com quatro padrões sanitários diferentes: o mais exigente é o das carnes exportadas, depois vem o das carnes submetidas à inspeção federal (SIF), que podem circular no território nacional, em seguida daquelas submetidas a inspeção estadual (SIE), que podem circular dentro do estado, e por fim, das que passam por inspeção municipal (SIM), cujo trânsito é permitido só dentro do município.

Ao divulgar os resultados do estudo no Congresso, o diretor da Amigos da Terra, Roberto Smeraldi, solicitou aos parlamentares a implantação de um sistema único de inspeção: “Se acabarmos com a inspeção de ficção, não vai faltar carne na mesa do brasileiro: a capacidade de abate em plantas com inspeção federal atinge mais do que o dobro da produção atual” .

– Acesse o relatório na íntegra – 

Confira abaixo o documentário, parte integrante do estudo.

Via EcoD